Orgulho!

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

COMO A COLETIVIZAÇÃO DE STÁLIN INTERAGIU COM UMA VERTENTE DOS ANCESTRAIS

Quando as estradas que levam a Roma se cruzam

          Indubitavelmente, queiramos ou não, a roda dos ventos da história gira e atira em nós fragmentos originários de lugares sequer imaginados. Ou melhor, nossa limitação impede que saibamos os incontáveis fatos históricos e os lugares onde aconteceram. 
          Meus bisavós maternos Johannes Kroeger, nascido em 19 de dezembro de 1858, em Nenndorf, Silésia e Hanne Emilie Erdmuthe Krüger, nascida a 21.02.1859 em Pinnow, Pomerânea,  † (?) Ibirama, SC , imigrantes, casaram-se em Blumenau da data de 13 de setembro de 1879. O casamento foi realizado pelo Pastor Rudolph Oswald Hesse e teve como testemunhas Heinrich Krüger e Elisabeth Kröger. Johannes e Emilie tiveram ao todo onze filhos, entre os quais minha avó materna Bertha.
Filhos: Cäcilie Auguste BERTHA, Hermann, August, Carl, Marie, Alwine, Emilie, Ulrike, Pauline, Heinrich e Otto. 

Da Sibéria [URSS] para Bagé, RS, [Brasil]
         
          Erich Kroeger, um dos filhos, casou-se com a imigrante teuto-russa Katarina Kaethler cuja história - Lebensgeschichte - foi contada no meu livro "Os Ruseler de Oberhausen, traços da família no Brasil".
          Katharina nasceu em Nicolaifeld, no Condado de Omsk, Sibéria, lugar onde viveu até os cinco anos. 



Lebensgeschichte Katarina Kaetlher
          
          Segue seu relato, enviado a mim pelo seu filho Friedbert:
          Nicolaifeld era um povoado de prósperos agricultores. Seus pais também eram agricultores com alguma terra. No local onde viviam eram plantados trigo e pasto (cevada e aveia) para os cavalos. O gado era criado principalmente para consumo próprio. Produzia-se também manteiga para venda. Também animais domésticos menores eram criados, como galinhas, gansos e suínos. 
          Após a Revolução Russa em 1917, a vida para os agricultores ficou mais difícil porque o governo aumentava cada vez mais os impostos. Também ficou difícil professar o cristianismo. Pregadores foram muitas vezes interrogados. Aulas de religião foram proibidas nas escolas. A liberdade de religião foi cada vez mais cerceada.

[Os impostos aos quais Käthe se refere são os confiscos compulsórios de colheitas e gado cada vez mais violentos visto que a URSS stalinista estava submetida ao 1º Plano Quinquenal (estavam previstos três), isto é, um processo de planificação onde foram estabelecidas prioridades tanto na indústria como na agricultura.] 


A decisão de sair da URSS

          As dificuldades econômicas e a falta de liberdade de religião fez surgir a decisão de sair da União Soviética. A saída da família Kaethler, Johann e Anna Wiebe Kaethler aconteceu no ano de 1929. Junto com os pais partiram Anna, Heinrich, Hans, Peter, Jakob, Wilhelm, KATARINA (Käthe), Gerhard e Liese. Na ocasião, Liese tinha 1 ano de idade. 

[O 1º Plano Quiquenal desenvolvido de 1928 a 1932 teve como principal objetivo criar as bases da economia socialista.. A agricultura foi coletivizada, criando-se os kolkhozes (cooperativas de camponeses), os sovkhozes (propriedades do Estado, cultivadas por assalariados) e as MTS (estações de maquinaria para apoio aos agricultores). Quanto à indústria pesada, à siderurgia e à eletrificação. A planificação promoveu uma desorganização dos bens de produção  gerando um ciclo muito grave de fome no início da década de 1930, quando não se sabe ao certo quantos milhões de russos morreram de inanição.]


          A família viajou até Moscou para obter autorização para sair. Marichen Kaethler com marido e filho decidiram ir mais tarde, porém não conseguiram mais sair.


A chegada à Alemanha

          A chegada à Alemanha foi pouco anterior ao Natal de 1929 quando o grupo ficou alojado em acampamentos nas cidades de Mölln (Distrito de Lauenburg, Schleswig Holstein), Prenzlau (Distrito de Uckermark, Brandenburgo) e Hammerstein (am Rhein?).
          A estadia na Alemanha estendeu-se por seis meses. Neste meio tempo, a família ficou abrigada em vários campos nas três cidades mencionadas anteriormente. Durante este período foram realizados esforços para que os grupos pudessem emigrar.
          Durante este período Käthe frequentou o Jardim de Infância. Em meados de 1930 finalmente a família pôde viajar. Com o navio Sierra Córdoba aconteceu a viagem da Alemanha para Buenos Aires. Foram três semanas de viagem com relativo conforto.

Foto rara: retirantes menonitas
Fonte: http://www.mennonitehistorian.ca/38.4.MHDec12.pdf
Vida nova no Paraguai

          Após a chegada a Buenos Aires, a família embarcou no navio Apipe com destino ao Paraguai (viagem longa e difícil). De Puerto Casado foi empreendida uma viagem de trem e depois uma viagem de vários dias em uma carreta de bois (Ochsenwagen) para Fernheim. Os imigrantes foram levados por cidadãos com segurança para a Colônia Menno.
          A Família Kaethler recebeu um lote de terra na Vila nº 6, chamada de Friedensruh.


Campo de refugiados alemães na URSS
* Foto garimpada com muita dificuldade
Mölln, distrito de Lauenburg, estado de Schleswig-Holstein
O inóspito, porém domesticado chaco paraguaio
          Na sequência do relato de Käthe, o enfoque sobre a educação é visível quando menciona a existência de cartilhas provenientes da Alemanha e o uso da lousa de ardósia. 
          A nova vida no Paraguai exigiu muito esforço no campo, uso intenso das mãos devido à falta de ferramentas suficientes. Semeadura a mão, capina e colheita. Nas plantações de kafir havia intensos ataques de pombos.


O cereal kafir, desconhecido no nosso meio, mas muito utilizado
pelos menonitas paraguaios.
A enfermeira Käthe
          
          Porém, o intenso trabalho no campo para Käthe estava com os dias contados. Aos 23 anos mudou-se para Filadélfia (Paraguai) para exercer um trabalho menos penoso. Trabalhou em um hospital no início e, em 1948, mudou-se para Assunção. Estudou Enfermagem na Escuela Andrés Ribeiro. Foram vários anos de estudo para formar-se parteira. Nas férias retornava para casa com o intuito de ajudar os pais. Terminado o curso, Käthe retornou para Filadélfia para trabalhar no hospital, estendendo-se esta missão até 1954, nos últimos anos como Irmã Superiora.
          Seguiram-se anos de intenso trabalho religioso paralelo. Em 1942 Käthe foi batizada, tinha 18 anos. Aos domingos Käthe ajudava no Jardim de Infância como professora e participava do coro.
          Em 1954 veio a decisão de mudar-se para Colônia Nova, Rio Grande do Sul. A comunidade andava à procura de um médico que atendesse permanentemente o hospital local.

Katarina e Erich

          Em 15 de agosto de 1955 aconteceu o noivado, e em 30 de dezembro o casamento com Erich Kroeger (sobrinho da minha avó Bertha), filho de Otto e Wilhelmine Kroeger, natural de Ibirama, SC. Erich foi o segundo filho de uma grande família luterana. Quando foi convocado para o serviço militar exercido no Rio de Janeiro em 1944, Erich converteu-se à fé menonita. Diante desta nova situação, Erich recebeu, no final de 1949, uma bolsa de estudos para a Escola Central em Fernheim, no Paraguai, permanecendo lá até 1952. Na Vila Nova, Bagé, trabalhou como professor.

A família Kroeger

          O casal Erich e Käthe teve quatro filhos: Friedbert, Hans Otto (residente no Paraguai) Horst e Victor.


A teuto-russa Katarina Kaethler, com o esposo Erich (primo-irmão da minha mãe Anna) e os quatro meninos em foto do
início dos anos 1960, em Vila Nova, Bagé, Rio Grande do Sul. Vila Nova continua sendo uma próspera comunidade formada pelos menonitas. Os menonitas descendem dos anabatistas, uma das várias vertentes decorrentes da Reforma Luterana.

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