Orgulho!

Orgulho!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Museu do Imperador

Sobrado Portinho, o Museu do Imperador
Desenho: Cleiton Leal
Prédio 'Fazendas Irapuá'
Foto: Jornal do Povo

O MUSEU DO IMPERADOR*
Renate Elisabeth Schmidt 
Professora de História

         Andam dizendo por aí que o ano novo finalmente começou. Como sempre, o ano que passou foi intenso, rápido com picos no Everest ou nas profundezas da Fossa das Marianas. Nem tanto aos céu, nem tanto ao mar, e entre um e outro, o entrevero de sempre afinal, saber viver não é para qualquer um.
         Um acontecimento ficou retido na alma dos cachoeirenses: o inédito Natal de 2014, que agraciou Cachoeira com um arranjo no qual patrimônio tombado e restaurado, luzes e rouxinóis natalinos, com um toque de fogos celestes, roubaram a cena no cômpito da Sete com Ernesto Alves. Escrevo sobre momentos marcantes que aconteceram numa colina de outrora.
         A majestosa edificação iluminada, cantante, derramava encantamento numa cascata cristã de fé. Bem ali foi,o momento Cachoeira da Natividade do Menino recém-nascido, cercado de marias e josés enlevados e recolhidos às suas emoções
         Findo o momento mágico, desci a Sete quando aproximei-me da Praça José Bonifácio e vi extática o Mercado Público, construído em 1882, igualmente esbanjando notas natais, cachopas de brilhos, revelando-se tal qual o prédio Fazendas Irapuá. Suas portas delimitavam o passado e o presente, quando então a quimera refugiou-se nalgum escaninho do pretérito.
Mercado Público
Foto: Museu Municipal
Inserção dos fogos no postal: Claiton Nazar

         Imantada pela aparição, a direção oeste me atraiu, para a Saldanha e quando estranhamente uma troika foi completada:  em delicados clarões, as esculturas de faiança portuguesa faiscavam nos tons do Natal bem no topo do Sobrado Portinho, numa irrefutável prova do bom gosto dos fantasmas do casarão, naquele momento surreal  - o “Museu do Imperador”! Museu, quimera, Imperador, fuga, imagem ...
         Os acordes finais do conflito farrapo trouxeram o Imperador  Pedro II à Província de São Pedro e também a Cachoeira para checar, in loco, a Paz de Ponche Verde. O sobrado em 1846 e 1865 foi a casa de passagem do Imperador. E o lema da República Riograndense – Liberdade, Igualdade e Humanidade, Imperador, inspirou as decisões que se seguiram. E neste exato momento, segue firme e forte o axioma?
         E então?
         Então que grande parte da herança material, nascido na forja das rodas, no ritmo das ferraduras, arados, das chaminés, dos braços escravos e livres, do comércio, escambo, não existe mais.
         A demolição do onírico “Museu do Imperador” foi dramática. Dizem que ele estava em boas condições A senzala, localizada no térreo, recebia ar e luz das aberturas do tipo óculo. Décadas depois haviam sido alargadas, transformadas em barzinho, brechó, sapataria … Mas quem nasceu rei ...
         Nas janelas com vista para a Saldanha Marinho dependuravam-se senhoras curiosas, não sei se conscientes da importância do lugar onde elas viviam. O prédio viveu seu tempo de ouro, prata, cobre e entulho! Alguns dos azulejos salvos estão sob os cuidados do Museu Municipal, as compoteiras devem ter saído “caminhando”, assim como o “Relógio da Praça” rumo a uma estação ignorada. O luxo dela assim como as pinturas no teto ainda abastecem nossas lendas urbanas.
         Tanto por fazer aqui ...
         E então expliquem-me o porquê dos enxames de peregrinos voarem ao Velho Mundo e à 'América', para devorarem museus, ruínas e monumentos! Expliquem-me do porquê de irem à 'Florença do Elba', Dresden, torrada pelo 'Bomber' Arthur Harris, a fênix estropiada da Saxônia.
         O passado do Velho Mundo é de fato uma isca indiscutível, cujas abundantes sobras são resguardadas feito tesouros pelas gerações deste tempo.
Átila, o "Flagelo de Deus"
Rei dos Hunos (406 - 453)

Moeda do período do governo do rei Cnut, o Grande (995-1035), Rei da Dinamarca

         Nada de repassar contas e culpas de um continente afetado pela hecatombe das duas  guerras mais destrutivas da história a Assurbanipal, Alexandre,  Cnut, Genghis Khan, Átila, não senhores - “bárbaros, ímpios, hereges e selvagens”, sedentos de terras, escravos e riquezas. 
Genghis Khan, o líder mongol
Monumento, Ulan Batoor, Mongólia

A história provou direitinho que as piores das piores aconteceram no século XX, no Velho Mundo, organizado, disciplinado, avançado e cristão. Lembrem 1914 e 1939, cujos senhores da guerra eram da finíssima cepa europeia!

Assurbanipal,último rei assírio
668 - 627 a.C.

         Longe deste “Guinness Book” bélico e do lado oeste do Atlântico, fica minha cidade natal cuja paisagem histórica continua encolhendo – consequência de uma barafunda de interesses.
         Pelo meu gosto especial pelo antigo, um dia partirei para Dresden, também darei uma esticada ao Museu Hermitage em São Petersburgo, Rússia. No retorno visitarei a histórica Rio Pardo, que conservou a edificação que hospedou o imperador que também esteve lá na mesma época daqui.
Museu Hermitage, São Petersburgo (antiga Leningrado), Rússia

Furstenzug, Dresden, Baixa Saxônia
Mural dos Príncipes
O mural mostra os retratos ancestrais de 35 margraves (título medieval),
eleitores, duques e reis da Casa de Wettin entre 1127 e 1904.


sábado, 9 de maio de 2015

Raízes do sangue e do ódio

Raízes do sangue e do ódio
*Shlomo Sand
Publicado no Correio do Povo em 31 de janeiro de 2015

Judeu, historiador, professor da Universidade de Tel Aviv, autor de vários best-sellers, entre os quais “A invenção do povo judeu” e “Como deixei de ser judeu”, Shlomo Sand, 68 anos, é um intelectual polêmico que não teme enfrentar as posições dominantes nem a ira de alguns dos seus colegas de profissão. De Nice, na França, onde passava alguns dias ao sol e escrevendo um livro sobre a relação da história com a ciência, ele concedeu, por telefone, esta entrevista ao Caderno de Sábado. Como sempre, foi implacável.
  
Shlomo Sand
Passado o impacto da tragédia de Charlie Hebdo, Sand faz o balanço da relação do Ocidente com a religião islâmica e do conflito israelo-palestino,

Caderno de Sábado – Por que, após os atentados de Paris, o senhor declarou, contra boa parte da intelectualidade, não ser Charlie?


Shlomo Sand – Logo depois dos atentados de Paris, escrevi um texto intitulado “Eu sou Charlie Chaplin”. Expus a minha recusa ao slogan “eu sou Charlie”, que reuniu pessoas solidárias aos cartunistas de Charlie Hebdo assassinados por extremistas. O crime cometido não tem justificativa nem desculpa. Dito isso, eu fiz a seguinte pergunta: devo me identificar com as vítimas e ser Charlie porque os mortos representavam a encarnação da liberdade de expressão? Algumas das caricaturas de Charlie Hebdo eram de mau gosto. Apenas algumas delas me faziam rir. Havia na maioria das charges publicadas pelo jornal uma raiva manipuladora com o objetivo de conquistar mais leitores. A caricatura de Maomé com um turbante-bomba publicada por um jornal dinamarquês em 2006 já me havia parecido uma pura provocação. Algo como relacionar judeu com dinheiro. Tudo isso só tem servido para associar islamismo e terrorismo. Incita ao ódio, dissemina preconceito, desrespeita a fé do outro. Sendo assim, não sou Charlie. 

Caos em Gaza

Sand – O limite da liberdade de expressão é a difusão do racismo. Duvido que Charlie Hebdo se atrevesse, como escrevi no meu artigo logo depois dos fatos, a publicar uma caricatura do profeta Moisés de quipá com ar de agiota numa esquina. Concordo com a proibição, na França, a que o humorista e polemista Dieudonné faça piadas com o holocausto, mas não posso admitir que ele seja agredido. Se fosse, porém, eu não sairia com um cartaz dizendo “eu sou Dieudonné”. O limite ao humor é a incitação ao ódio, ao racismo e ao preconceito. Uma coisa é satirizar uma religião dominadora e opressiva. Outra, atacar a crença de grupos dominados e humilhados. O Ocidente está acostumado a apoiar as piores opressões no Oriente Médio. Dito isso, precisamos lutar contra o extremismo de organizações como o Estado Islâmico, sem esquecer que europeus deixaram esse crescimento acontecer bancando, muitas vezes, os bombeiros incendiários.

Caderno de Sábado – O Ocidente tem então responsabilidade no que aconteceu como sustentam alguns intelectuais de esquerda?

Sand – É disso que estou falando. O Ocidente não faz o papel de Voltaire no Oriente Médio ou no mundo islâmico. É preciso não ridicularizar grosseiramente o islamismo na Europa onde vivem milhões de muçulmanos em condições precárias, realizando os trabalhos mais insalubres. Por tudo isso, não sou Charlie. Minha simpatia fica com os muçulmanos que vivem em guetos e poderão ser vítimas do ódio desencadeado pelos atentados. Minha referência é outro Charlie, aquele que nunca zombou de pobres e humildes, Charlie Chaplin. É fundamental lutar contra o terrorismo, que existe e produz devastação, tomando-se o cuidado de não estimular racismo e ódio. Além disso, a Europa não pode esquecer seu passado colonialista recente e os rastros que isso deixou. A Europa acompanhou os Estados Unidos ajudando a criar o caos no Iraque e na região. Com apoio de aliados “esclarecidos”, grandes defensores da “liberdade de expressão”, como os sauditas, ajuda a preservar fronteiras ilógicas estabelecidas por interesses imperialistas. A minha conclusão é simples: o Ocidente não é a vítima ingênua e inocente como gosta de se apresentar. A França é responsável pela situação atual do Mali. Precisamos dar uma basta à hipocrisia que dá aos ocidentais sempre o bom papel. Intelectuais e escritores desempenham um papel nisso.
Uma das centenas de crianças assassinadas no bombardeio israelense à Faixa de Gaza

Caderno de Sábado – Livros como o romance de Michel Houellebecq, “Submissão”, que trata da ascensão ao poder na França de um presidente muçulmano, em 2022, incitam o medo do islamismo?

Sand – Michel Houellebecq, mesmo que não seja a sua intenção, contribui para que as pessoas sintam medo do islamismo. Ninguém pode escrever um livro tendo como tema uma ameaça de judeização do mundo, mas o autor de um romance sobre uma ameaça de islamização ganha todos os espaços de mídia. A questão é: como lutar contra o terrorismo? A resposta, como venho mostrando nas minhas reflexões sobre o conflito israelo-palestino, está em entender as origens do conflito. Sem desconstruir os mitos não se chega ao cerne dos problemas maiores.

Gilad, Naftali e Eyal, os três rapazes israelenses assassinados
Caderno de Sábado – Como viu a participação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu nas manifestações de Paris depois do atentado contra a mercearia judaica e contra Charlie Hebdo?

Sand – Terrível. Netanyahu nem sequer compreende o fato de que judeus possam viver em outros países. Na cabeça dele, todo judeu fora de Israel está em situação temporária fora de casa e deveria voltar para o seu lugar. Ele não entende o conceito de cidadão e de cidadania.

Caderno de Sábado – Um dos assassinos dos atentados de Paris, o que invadiu a mercearia de produtos judaicos, fez menção à questão da Palestina. O senhor é um estudioso das relações entre judeus e palestinos. Vê uma saída para esse conflito que parece sem fim?

Sand – Não. Não vejo saída. Seria preciso uma forte pressão internacional para salvar Israel de si mesmo. Essa pressão teria de vir dos Estados Unidos, mas isso não acontecerá, pois Barack Obama não é presidente que se poderia imaginar. Ele cedeu rapidamente ao lobby sionista e aos interesses da indústria armamentista. Israel não percebe as próprias contradições. Desde 1947, instalou um regime de apartheid que não para de se acentuar. Temo pelo futuro de Israel. As reações e revoltas poderão se ampliar atingido até a Galileia.

Soldados israelenses em oração

Caderno de Sábado – Não vê Israel como uma verdadeira democracia?

Sand – Claro que não. Israel é uma etnocracia, o Estado dos judeus, o que se baseia numa visão etnocêntrica. Uma democracia é de todos os seus cidadãos independentemente das suas crenças ou “raças”. As medidas recentes com o objetivo de enfatizar o caráter judaico do Estado de Israel enfatizam esse elemento inaceitável de separação. Israel e Líbano são dois países com elementos liberais e democráticos, mas Israel não pode ser visto como uma verdadeira democracia na medida em que não aceita o fundamento universalista do regime democrático. Os assentamentos, que continuam, e a lógica empregada pelo sistema dominante alimentam esse apartheid que tem consequências cotidianas deploráveis para palestinos vivendo em condições precárias e insustentáveis. Qualquer um pode ver isso. Repito, só a pressão internacional poderá levar Israel a ser democrático. Quanto ao conflito, precisamos de dois Estados com base nas fronteiras de 1967. Fora disso, nada poderá funcionar mesmo.

Caderno de Sábado – Como superar a questão dos refugiados palestinos que gostariam de ter direito de retornar à terra de pais ou avós?

Sand – Temos de ver a situação com moderação. Todos os refugiados não podem voltar, pois isso significaria o fim de Israel. Mas precisamos fazer com que uma parte desses descendentes de palestinos possa voltar. O princípio é simples: em 1947, a terra onde está Israel era deles, dos palestinos, que foram expulsos de lá. Essa história de direito de dois mil à terra de Israel é uma bobagem. Ninguém tem esse tipo de direito. Ou todos os brasileiros de origem europeia deveriam sair do país e devolver o Brasil inteiro aos índios? Os Estados Unidos também deveriam ser evacuados? Não existe isso. Os judeus não são um povo, não são uma raça. Há judeus russos, poloneses, judeus saídos do Iêmen, de origens distintas. Só a religião é comum entre eles. Os brasileiros não são uma raça. Nem os judeus. Boa parte dos judeus de hoje não descende de ninguém que jamais tenha vivido na Palestina, mas de pessoas convertidas ao judaísmo em outros lugares.

Caderno de Sábado – E a lei de retorno para judeus?

Sand – Só devem poder ir viver em Israel judeus perseguidos. É um critério factível e sustentável moralmente. Os demais têm as suas nacionalidades e não são nem devem ser israelenses. Os fundamentos que justificam a existência de Israel são o holocausto e o fato consumado. Dado que Israel existe, precisa continuar existindo. Para isso, temos de conciliar israelenses e palestinos no mesmo espaço. Como a terra era dos palestinos e não se pode receber de volta todos os refugiados, cabe juntar dinheiro e indenizar todos os que foram despojados. Um mítico direito de dois mil anos atrás não pode se sobrepor ao direito de propriedade legítimo de 1947. Israel precisa assumir o seu papel na tragédia da população palestina.

Caderno de Sábado – Não acredita numa unidade genômica dos judeus?

Sand – De jeito nenhum. Essas pesquisas de DNA, essas pesquisas que falam de um DNA comum a todos os judeus, são uma empulhação. Tudo isso faz parte de um mito perigoso, o mito do povo judeu como raça.

Caderno de Sábado – Seus colegas o odeiam?

Sand – Historiadores apegados aos mitos sionistas me odeiam, mas meus livros são best-sellers em Israel. Estou escrevendo um livro sobre história e ciência para mostrar que história não é ciência. Ideologias, mitos e emoções permeiam boa parte dos relatos.
Soldado israelense
O jeito dele me fez lembrar da escultura
de Rodin - O Pensador

Menina palestina

domingo, 3 de maio de 2015

Brasil: Pátria Educadora?

Véspera do Dia do Trabalho do ano de  2015, Curitiba, Paraná, Brasil
Professores da Rede Pública Estadual são massacrados com balas de borracha, gás lacrimogênio,
gás pimenta, cassetetes e cães ao invés de incensá-los como agentes promotores de um novo Brasil possível.
As ordens para a repressão despropositada veio do governador que ao que parece, tem medo deles.
Retorno às relações primitivas dos idos da
Revolução Industrial

Naqueles tempos, os trabalhadores eram tratados da pior forma visto que as leis de trabalho sequer engatinhavam.
Muitos anos se passaram e muito bestialidade foi praticada até que enfim foi definido um conjunto de normas que pretenderam proteger e valorizar os trabalhadores.
Entretanto, muito anos ainda se passaram para que fosse abolido o trabalho infantil (em muitos países pobres é praticado livre e solto) e o excesso de horas trabalhadas e ainda  alcançado o direito a férias e licenças de saúde.

Na foto ao lado vêem-se três meninas pequenas de 7-8 anos talvez, sujas, estropiadas encarando com olhos tão sérios o fotógrafo. Como puderam permitir esta excrescência?

Em Curitiba, os professores apanharam, foram furados pelas balas e pelos dentes de cães medonhos. Choro, raiva, sufoco, choque, dor. O que pretendia o governador com tanta violência?
Emblemática e com direito a farta munição de fotos chocantes, às vésperas dum dia carregado de simbolismos. E a violência no Paraná atingiu todos os professores deste caótico país, terra que não reconhece a importância deles e nega à classe o status de um profissional com condições de trabalho dignas e salário decente.
Bateu no meu colega paranaense, bateu em mim, bateram em todos os colegas deste paradoxal país.

O chavão 'PÁTRIA EDUCADORA' é nobre porém é fake - FALSO!





OS BARTMANN



Weilburg
                         OS BARTMANN*

*Renate Elisabeth Schmidt


A comunidade da minha cidade é muito Bartmann. É Bartmann pra lá, Bartmann pra cá e a todo momento de uma forma ou de outra um Bartmann vem à luz dos nossos pensamentos ou olhares por coisas que movem e nos movem porque elas orbitam estas terras generosas das quais orgulhosamente compartilhamos.
Decorrido um século e meio, muitos outros sobrenomes vieram ao encontro daquele que dá o título a este artigo, orgulho dos que vieram depois. Diria que ela, a descendência, é quase como satélites orbitando em torno do astro-rei. São muitos nomes e novos sobrenomes, escrevo então que o espaço exíguo deste papel tornou-se uma barreira para nominá-los.

Wiesbaden
Há Bartmanns em outras latitudes mas então vou contar um pouco dos pioneiros que vieram para a Colônia Santo Ângelo.
O sobrenome Bartmann nos remete à Colônia Santo Ângelo cujo início em 1857, aconteceu pelas mãos do Barão von Kahlden. Nos remete à imigração alemã no Rio Grande do Sul que ora comemora 190 anos. Nos remete à cidade de Weilburg an der Lahn, Hessen, onde nasceram Jacob e Margarida, os imigrantes pioneiros Bartmann da referida colônia. Assim como Cachoeira abrigou muitos descendentes, por sua vez, na própria colônia dispersou-se também o clã.

Genearca Magdalene Luise Antoinette
Schnabel Bartmann,, Weilburg

(*1814 – †1874)

A raiz comprovada por documentos (e uma fotografia memorável) provém dos genearcas Theodor Johann Wilhelm Bartmann e Magdalene Louise Antoinette Schnabel (nota-se a forte influência francesa no nome feminino), pais do patriarca Jacob. Era uma Alemanha napoleônica na época.
Os Bartmann de Cachoeira são fruto da prole de Jacob Moritz August e de Margaretha (Margarida) Weirich Bartmann. Jacob foi o filho primogênito de Theodor e Magdalene.
Jacob e Margarida imigraram para a Colônia Santo Ângelo que recebeu, por sua vez, a primeira leva de imigrantes alemães em 1º de .
 novembro de 1857, colônia esta sob a direção imediata do Barão von Kahlden.
Hessen


Setenta e sete anos antes, na década de 1780, a Europa Central era formada por cidades-estado autônomas por vezes fazendo confederações para mostrar mais poderio. Os conflitos entre estas cidades eram frequentes, escreve Osório Bartmann, bisneto de Jacob.       Nesse cenário nasceu Theodor, em 1784, na aldeia de Dillenburg. A Alemanha de hoje era na época, um conglomerado de principados e ducados. A unificação dela só irá ocorrer em 1871 pela batuta do chanceler Otto von Bismarck.
Cinco anos após o nascimento de Theodor, estourou a Revolução Francesa, refratária ao sistema feudal. Com a tomada do poder após um doloroso processo de autofagia em 1799 por Napoleão Bonaparte (um pró-revolucionário convicto), a Europa enrodilha-se numa tumultuada época de guerras de conquista que iam saciando por ora as ambições imperiais do corso esfaimado (e líder carismático, estrategista genial, criativo e reformista). Nessa época, Theodor contava com 15 anos.

Dillenburg
Quando Napoleão coloca sobre sua cabeça a coroa imperial francesa em 1804, Theodor agora com 21 anos, ficou à mercê deste império que segue se agigantando e exigindo homens e dinheiro para as campanhas do exército. Segundo Rudolfo Bartmann, neto de Theodor e pai de Osório, o avô teria se deslocado por várias regiões onde hoje é a Alemanha, certamente com as dificuldades subentendidas aos tempos de inquietude política, principalmente. 

Igreja Luterana de Heckholzhausen, 
Landkreis Limburg-Weilburg, Hessen.
Mas eis que aos 45 anos, conheceu Magdalene, nascida em Mosbach no ano de 1814 (ano da abdicação de Napoleão). Casou-se com ela em 1833, na pequena cidade de Heckholzhausen (ele a dois dias de completar 49 anos e ela com 18) e o casal resolveu fixar residência em Weilburg an der Lahn, lugar onde surgiu oportunidade de trabalho para Theodor: serviu ao Ducado de Weilburg, como “Capitão Ducal - Hauptman zu Weilburg”, cargo pelo qual recebeu uma medalha pelos dez anos de ótimos serviços prestados. O objeto   acabou vindo junto na bagagem de Jacob por ocasião da sua imigração e é conservado até hoje.

Mosbach, Wiesbaden, Renânia.
Theodor e Magdalene tiveram cinco filhos: Jacob (meu bisavô), Wilhelmine, Elisa, Elise e Carl Emil. Ao nascer último filho, Theodor contava com 62 anos.
Jacob veio morar na Colônia Santo Ângelo, mas e os seus irmãos? Permaneceram na Europa? Há “Bartmanns” vivendo nos Estados Unidos, parentes da linhagem cachoeirense, será?
Um ano após o nascimento de Magdalene acontece a Batalha de Waterloo (1815), num encharcado campo belga. A artilharia napoleônica atolou no terreno empapado e este revés contribuiu para a derrota de Napoleão Bonaparte diante da poderosíssima coligação formada pela Inglaterra, Áustria, Prússia e Império Russo. Os países vencedores não perderam tempo e um congresso, o de Viena, tratou de repaginar mapas, remarcar fronteiras, restaurar tronos e defender interesses. 
Casamento de Caroline Bartmann e Alfredo Schütz. Na foto estão: 1. Hermine Schütz (irmã do noivo);
2. Carola Bartmann, 3. Ernesto Bartmann; 4. Alfredo Schütz; Heinrich Köhler;
5. Heinrich Köhler; 6. Elisabeth Bartmann, 'Elise'.
Acervo Pessoal
Dillenburg, Hessen
Sete anos antes do Congresso, em 1808, o rei português, D. João VI havia escapado da investida napoleônica à Península Ibérica. A terra lusa havia desrespeitado o bloqueio continental decretado pela França para sufocar as ilhas britânicas, bravas e invictas resistentes aos avanços napoleônicos.
O recém criado Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815), em outras palavras, Brasil, um espécie de sede de governo português no exílio, começou a atrair imigrantes não portugueses.  Um pouco depois, em 1819, chegaram suíços que migraram para o Rio de Janeiro, fundando Nova Friburgo.

Oito anos após, o príncipe D. Pedro, da Casa de Bragança, casou-se por procuração em Viena com a arquiduquesa Leopoldina Carolina Josefa. Leopoldina era filha de Francisco II, último imperador do Sacro Império Romano da Nação Alemã. Francisco ao mesmo tempo era Francisco I,
Weilburg an der Lahn
 distrito de Limburg-Weilburg,
 região de Gießen, estado da Hessen.
primeiro Imperador da Áustria, da Casa dos Habsburgos.
A antepassada de Leopoldina, a Imperatriz Maria Teresa, havia colonizado terras ao longo do Danúbio, para impedir o avanço dos turcos em direção ao centro da Europa, com ameaça ao território  austríaco.
Anna Luise Schmidt Chagas, Margarida Bartmann e Roberto Prediger.
Contenda, 1968.
Cortesia Vonir Boijink
No sul do Brasil havia  uma situação parecida. Constantes invasões obrigavam a atividades bélicas permanentes. E para colonizar o sul nem pensar em portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses
Cemitério dos Bartmann, Cerro Branco. Túmulos de Jacob e Margarida
Weirich Bartmann . Na foto, Gelson Bartmann, bisneto de Joseph Bartmann
e Renate Elisabeth Schmidt, neta de Marie Antoinette Bartmann Schmidt.


Leopoldina era alemã. Então por que não, alemães?
            A Prússia que um dia tomaria parte da Alemanha, historicamente nacionalista, militarista e disciplinada, era respeitada por D. Pedro que optou por trazer mercenários alemães “misturados” aos colonos para “disfarçar”.
Influenciado pela esposa, D. Pedro I em 1823 distribuiu proclamas pelos estados alemães para promover a emigração desses lugares para a nova nação que se formava, escreve novamente o bisneto de Theodor, Osório Bartmann.
E em 1824 chegaram os primeiros colonos ao Rio Grande do Sul, 39 mais precisamente, contratados por conta do Governo Brasileiro por Jorge Antônio von Schäffer na Alemanha, para a Feitoria do Linho Cânhamo. Corria o dia de 25 de julho, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no sul do Brasil, que viria a evoluir para a cidade de São Leopoldo.
Capa do opúsculo "Aus Weilburg an der Lahn nach Colônia Santo Ângelo"

Muitas águas agitadas, cristalinas e turvas (turvas não pela poluição da Revolução Industrial, que andava preguiçosa para ancorar no Brasil), rolaram pelas cachoeiras do processo migratório porque evidentemente nada era simples. Renúncia à nacionalidade alemã era uma imposição aos imigrantes, a hostilidade da paisagem, viagens perigosas, propaganda enganosa, precariedades, doenças e perigos,  formavam o séquito de dificuldades.

         Jacob emigrou ao Brasil pobre e solteiro. Atraídos pelos agenciadores, pela política oficial brasileira, pela Lei de Terras de 1853, pela chance jamais sonhada na Europa de possuir uma propriedade sua e espantados pela vasta legião de desempregados, pelos sub-empregos, pela onda de revoluções e consequências diretas e indiretas da Revolução Industrial, como por exemplo a elevadíssima mortalidade infantil, milhares de alemães deixaram a Europa e atravessaram o Atlântico. Parte deles veio para o Brasil.
         Em 1857 foi a vez de Jacob Johann Weirich e Anna Maria Schwier, prussianos, embarcarem em Hamburgo no Patacho Helena com os cinco filhos: Joseph, Suzana, Margaretha (futura esposa de Jacob), Elisabeth e Michael. Nesta ocasião, Margarida estava com 13 anos. Chegaram a Porto Alegre no vapor Continentista em novembro de 1857.
         Entre Jacob e Margarida havia uma diferença de 10 anos. O casamento ocorreu pouco antes da unificação alemã.
         O casal teve extensa prole: Maria, Emílio, Alfons, Joseph, Wilhelm August, Carlos Otto, Maria Antoinette (minha avó paterna), Ernesto, Margaretha, Elisa, Carolina e Johann Karl. Dos onze filhos provêm os Bartmanns cachoeirenses.
         Hoje, o "cemitério Bartmann", como é conhecido, é guardião dos túmulos do casal, cujas lápides pouco a pouco estão se esvaindo. Ao lado do pequeno cemitério, as plantações dos colonos crescem e produzem fartura para a terra que que os acolheu e que guarda tantas histórias. Um imigrante nunca será somente um número e uma estatística. Histórias de enfrentamentos e superações compartilham vicissitudes. 
         Assim sendo, dedico este pequeno texto a todos os imigrantes que acreditaram e para cá vieram para finalmente terem a terra que seria sua. O trabalho deles está semeado a nossa volta sempre a intrigar. Mágicos?
         Trabalho, muito trabalho e ao lado, estudo!

sábado, 2 de maio de 2015

OS DIAMANTES SÃO ETERNOS!

1945-2015: 70 ANOS DO FIM DA GUERRA NO FRONT OCIDENTAL

Portão de Brandenburgo, Avenida Unter den Linden
Varsóvia, 1939
“Não há longa noite que não encontre o dia”
William Shakespeare 

         Assim que foi designado chanceler da Alemanha, Hitler rapidamente instituiu uma ditadura de partido único, e os seus adversários foram intimidados e obrigados a se submeter. Logo que se viu firmemente no comando, Hitler começou a rasgar sistematicamente o Tratado de Versalhes. O serviço militar foi introduzido em 1935; a Renânia foi ocupada em 1936, a Áustria e os Sudetos foram tomados em 1938 e Memel (hoje Klaipe, Lituânia) , em 1939.
Os nazistas forneceram uma resposta radical e horrenda para a eterna pergunta: “Quem é alemão?”. Os velhos inimigos de Otto von Bismarck – os sociais-democratas, os cristãos politizados, os liberais com tendências esquerdistas – foram enviados para o exílio ou aprisionados em campos de concentração. A elite polonesa foi sistematicamente assassinada, e milhões de outros foram escravizados. A muito alardeada “comunidade racial” foi purgada de todos os elementos considerados perigosos e debilitantes como os deficientes físicos e mentais, os criminosos habituais, os homossexuais, os ciganos e os judeus. Eles eram segregados, esterilizados ou assassinados.

Berlin, 1945
Berlin, 1945
Frankfurt


Bismarck, frequentemente retratado como um diplomata genial, havia deixado um legado fatal. Ele havia se indisponibilizado permanentemente com a França, ao concordar com a anexação da Alsácia-Lorena, e depois conquistou a hostilidade da Rússia, primeiro em virtude da sua aliança com a Áustria-Hungria e depois ao desencadear uma guerra comercial. O seu inadequado envolvimento com o imperialislmo tornou a Inglaterra cada vez mais cautelosa com relação à nova Alemanha. Quando os seus sucessores começaram a construir uma armada de guerra, a Grã-Bretanha, humilhada pela Guerra dos Bôeres, buscou parceiros no continente e ingressou na aliança franco-russa, concretizando assim, o “pesadelo de coalizões”.


Gueto de Varsóvia
Museu Hermitage, São Petersburgo (Leningrado)
A política interna de Bismarck era tão desagregadora quanto a sua política externa era perigosa. Ele pintou uma imagem chocante dos supostos inimigos do Reich, dos quais os mais proeminentes eram os sociais-democratas, mas que também incluíam os católicos, os franceses, poloneses, alsacianos, dinamarqueses e, sempre que era politicamente conveniente, os judeus. Com uma lista tão abrangente de adversários, uma maioria de cidadãos era considerada estrangeira, ao passo que somente conservadores protestantes eram julgados verdadeiros alemães. O sistema começou a se desintegrar quando poderosas forças liberais e democráticas enfrentaram um conservadorismo obstinadamente resistente à mudança, apoiado pelo populismo antissemita racista. Quando a 1ª Guerra começou em 1914, essas tensões sociais e políticas foram temporariamente superadas em uma extraordinária exibição de unidade nacional, mas à medida que a guerra foi se arrastando, a nação se desintegrou. Quando a Frente Ocidental desmoronou em 1918, pouco depois da ofensiva especularmente bem-sucedida da primavera, a maioria dos alemães ficou chocada e foi pega de surpresa. O alto comando dPetetero exército havia ocultado o verdadeiro quadro e acusou as forças democráticas de apunhalar o exército pelas costas, causando a derrocada do país.
            Opondo-se ao Tratado de Versalhes que fora obrigada a assinar,  a Alemanha estava determinada a anular um acordo de paz que era hostil o bastante para que todos sentissem que era extremamente injusto, porém frágil demais para ser posto em prática. A determinação da Alemanha de anular o acordo de paz foi em parte dissimulada pelo Tratado de Locarno em 1925. Segundo esse documento, a Alemanha reconhecia a inviolabilidade das fronteiras definidas no Tratado de Versalhes e se comprometia a não a modificar pela força e a recorrer sempre no caso de necessidade a uma arbitragem internacional. Além aceitar a completa desmilitarização da Renânia. Em compensação, teria direito de entrar na Liga das Nações.
Contudo, uma grave crise econômica aliada a um completo colapso do sistema político possibilitou que as campanhas de Adolf Hitler e dos seus nacional-socialistas causassem um impacto ainda maior. A resistência à ameaça nazista foi enfraquecida pela incapacidade das forças democráticas de resolver as suas acentuadas diferenças com o objetivo de chegar a um denominador comum exequível diante de um perigo comum, bem como pela insensatez dos conservadores que imaginavam que poderiam usar Hitler para servir aos seus próprios propósitos.

A estarrecedora visão de Hitler não poderia se concretizar sem uma grande guerra, a qual, a princípio, pareceu que ele talvez fosse ganhar, apesar das advertências dos seus generais mais sensatos. Por meio de uma combinação mortal de furor ideológico e eficiência burocrática, Hitler perpetrou um crime de horror inimaginável, que ele acreditava ser a sua maior realização e seu maior legado – pelos quais as gerações seguintes seriam gratas. Este crime deixou um mundo em ruínas, com dezenas de milhões de mortos.
Em 1945, a Alemanha era uma pilha de escombros com uma população faminta. Era uma pequena Alemanha entre o Reno e o Oder, uma vez mais um vácuo de poder, dividida em quatro zonas de ocupação.

 Fonte: História da Alemanha Moderna, Martin Kitchen.

Vertreibung


Enigma



Pearl Harbor, 1941
O horror, o horror ...
URSS


sexta-feira, 24 de abril de 2015



POR UM FIO
Renate Elisabeth Schmidt*
*Professora de História
A débil democracia brasileira anda temerosamente equilibrando-se numa corda bamba estendida num precipício sobre o Hades da ditadura,  entre o passado imprudente e o frágil presente.
Moldado no modelo de colônia de exploração, o Brasil padeceu as agruras dum sistema pautado na extorsão de suas riquezas, arrancadas pela mão-de-obra escrava africana. Os rios de ouro daqui engolidos inundaram a metrópole, impedindo o colapso de sua economia paupérrima, concentrada na riqueza do mar, na produção de vinho e na exploração da oliveira asfixiada porque atrelada às potências europeias nascentes. Tão medíocre que o transporte do pau-brasil era feito por navios holandeses.
O Brasil viveu por 322 dos seus 515 anos, a ditadura colonial, para então trocá-la por um império fraco, impopular e estagnado. A ditadura da Coroa rendeu trocados, abastecendo o 1889 com meia dúzia de contos de réis democráticos, prato cheio para uma República golpista, passando então o Brasil a provar o modelo republicano,  cujas origens perdem-se nas histórias de Roma. Um ano antes, o marasmo imperial “libertou” os últimos escravos, jogando-os no limbo social, situação que perdura na atualidade.
Foi então dada a largada para a ditadura do “Café com Leite”, sob a batuta dos coronéis cafeicultores e dos usineiros, copiados e invejados meio de longe pelos colegas sulistas do charque. Tudo agregado aos currais eleitorais. Muito pouco da saudável prática republicana redundou em melhorias para o coletivo. A briga sulista de 1835-1845, anterior à República, deixou evidentes os interesses direcionados em questão.
Em 1930 a ditadura é de baixa estatura e veste farda. No novo viés é preciso enfraquecer o poder binário, até então senhor absoluto das terras brasileiras.
E o país segue equilibrando-se na corda, vivendo arroubos institucionais contraditórios. Os anos que se sucederam seguiam temerários porque se colhiam  as consequências duma delicada fragilidade nacional, a falta de matéria-prima bípede e supostamente inteligente, conhecida como Homo sapiens.
Nas democráticas terras do norte, nos EUA, a conversa é outra. As colônias do norte sangraram sua própria carne (Guerra Civil) para defender o modelo econômico que se adequava a elas, no contexto de recém ingressos na 2ª fase da Revolução Industrial. Diferentemente do Brasil, os EUA configuravam uma ‘colônia de povoamento’.
Como parte vitoriosa da Grande Aliança, eles despertam como potência inquestionável. Excetuando o ataque a Pearl Harbor, os seis anos da Segunda Guerra pouparam o solo estadunidense da destruição e do caos. Invocada levianamente, desconsiderando o custo de 50 milhões de mortos recém esfriando nas covas coletivas ou a céu aberto, a Guerra Fria recobre o planeta, rugindo pelos seus 360 graus. A paranoia anticomunista, em mutação, virou um cancro mortífero, alcançando inclusive o Brasil.
Suas células deformadas contaminaram razões e conspiraram ações fazendo o colapso de um governo constitucional, agitado pela drenagem criminosa dos princípios institucionais.

Jango jamais foi comunista, porém já iniciou seu governo como paciente terminal, circundado por células malignas reacionárias, que descendiam da cepa genealógica vigente no Brasil desde os idos das capitanias gerais, na ocasião contraditoriamente chamada de homens bons.
Aliás, quem seriam hoje os homens bons?

sábado, 27 de dezembro de 2014

Os bons velhinhos
Carlos Heitor Cony
Folha de São Paulo, 21 dezembro de 2014

                Pior do que acreditar em Papai Noel e não acreditar em nada. Por sinal, este é o caso em que eu me enquadro.
                Afinal, a  barra humana é dura de segurar e desde os tempos das cavernas qwue o homem apela para os papais noéis de circunstância.
Um a um, esse papais noéis foram desmascarados e restou, para alguns, talvez para a maioria dos homens, esse imenso Papai Noel que é justo e clemente, poderoso e universal, e ao qual devemos honra, louvor e glória e do qual devemos esperar a chuva e o sol, a vida e a morte.
                A ideia de Deus foi burilada, copidescada em vários níveis e transformou-se em uma das alavancas que sustentam o homem diante do mundo e da vida.
Até aí, tudo bem, cada um tem o Papai Noel que merece.


                O diabo é que os anos passam, passam, passam os séculos e ao contrário do Papai Noel, que a idade adulta desmascara com facilidade, a ideia de Deus persiste no coração e na mente do home, como a única alternativa que o libertará do desespero e do nada.
                Afinal, são duas ideias nascidas no mesmo forno.
                A do bom velhinho, que toma conta das crianças bem comportadas e que, no final do ano, traz brinquedos para elas e a ideia do pai universal, que anota os copos de água que damos ou deixamos de dar e que preside - de acordo com as sagradas escrituras - a cada cabelo que cai de nossas cabeças.

                São funções razoavelmente inúteis. Assim como seria desejável que Papai Noel desse de comer a todas as crianças que passam fome no mundo, também seria decente se Deus suspendesse por algum tempo os ditames de sua divina justiça e desse a todos os homens os mesmos direitos e deveres, dispensando-os de provar, dia após dia, a miséria que faz parte do nosso legado e da qual somos escravos. 

O SIGNIFICADO DA INDIFERENÇA

Havana
O significado da indiferença

Jânio de Freitas
Folha de São Paulo, 18.12.2014

          Os 53 anos do bloqueio americano a Cuba não foram ao regime comunista cubano. Foram a milhões de crianças, e a milhões de mulheres, e a milhões de homens , que compuseram na infância, na juventude, como adultos e como velhos as sucessivas gerações submetidas a mais de maio século do flagelo inútil de carências terríveis.
          O regime sobreviveu muito bem, deu-se mesmo ao luxo de derrotar todas as investidas, nas mais variadas formas, que a maior potência bélica não cessou de lhe dirigir. As afirmações de que o regime mudou não são inteligentes, são apenas vulgares. O que mudou foi o mundo, e o regime se adaptou às circunstâncias, como sempre fizera, e por isso sobreviveu. Em nova York, há 50 anos, ver negros  entrando no elevador com brancos era prova de estar na ONU.  Hoje a discriminação continua, porque o segregacionismo está na índole do país, mas os brancos vão à Casa Branca (um nove sugestivo) para falr com um negro.
          E por que tantos anos de sofrimento imposto a um povo cujo país nada poderia contra os Estados Unidos?
          Os motivos do bloqueio e seus antecedentes perderam-se na vaguidão "cultural" da atualidade. Mas não diferem dos outros que têm movido os Estados Unidos mundo afora. Apoiadores da ditadura de Fulgêncio Batista - simbolizável nos órgãos genitais mandados à noiva do estudante oposicionista que os perdeu na tortura -, os Estados Unidos exigiam que a revolução democrática de Fidel Castro preservasse os negócios de americanos no seu quintal cubano: a maior concentração de cassinos  os e bordéis do mundo, bebidas alcoólicas, grandes plantações de cana com mão de obra semiescrava e exportações de açúcar. Cuba era dividida entre negócios e grupos da máfia americana.
          Os problemas começaram com o fechamento dos cassinos e bordéis. Os chefes mafiosos haviam sido importantes para a eleição de Kennedy. A escalada foi intensa: reação americana, avanços revolucionários com nacionalizações e reforma agrária. Kennedy ordenou a invasão, derrotada pelos cubanos, e o bloqueio total a Cuba. Fidel, em seu primeiro grande movimento de manipulação das circunstâncias, compõe-se com a oferta de ajuda da União Soviética, típica da Guerra Fria. Até então, e desde a luta contra Batista, o grupo de Fidel e os comunistas mantinham hostilidade frontal. Também isso mudaria, e mudaria tudo mais.
          Dez anos depois da morte de Stálin, o Partido Comunista Cubano conservava o stalinismo em sua forma mais ortodoxa. Integrado a um governo que precisava apegar-se às relações com União Soviética, OCCC e suas concepções tornaram-se a força predominante na caracterização do regime.
          A crise da União Soviética desnorteou o regime cubano, e o fim do comunismo soviético lançou-o em circunstâncias que enfraqueceram a ortodoxia. No tempo das aberturas, o poder voltou ao reformismo, com uma peculiaridade: passou de irmão a irmão, com o sisudo e inflexível Raul retomando o Fidel extrovertido e aberto do princípio. E agora, o papa Francisco, o segundo papa cristão em nosso tempo, com João 23.
          A tão longa indiferença americana com o sofrimento de milhões de vítimas do bloqueio não tem originalidade. É a mesma que, em certa manhã de verão, lançou sobre os habitantes de Hiroshima uma tempestade de fogo e gases que os carbonizou, quando o seu país já queria discutir os termos da rendição. E, passadas pouco mais de 48 horas, a mesma indiferença jogou uma segunda bomba atômica, sobre os habitantes de Nagasaki, incandescendo-os todos. É a mesma indiferença que lançou sobre o pequeno Vietnã mais bombas com o fogo pegajoso do napalm do que todas as suas bombas lançadas na Europa e na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial. É a mesma indiferença de um país, em palavras recentes do seu presidente, que "esta em guerra permanente".

          Indiferença pode ser sinônimo de perversão e perversidade. Significado que, parece provável, os futuros historiadores vão preferir.